(Faltou o circunflexo no "o")
No barco ancorado no Porto da Barra estava escrito seu nome:
D E U S P O R N O S
Fenomenologia da percepçao
(agora sobrou cedilha)
domingo, 13 de dezembro de 2015
domingo, 6 de dezembro de 2015
INDEPENDENTEMENTE IMBECIL
“im.be.cil
(cil) adj2g. s2g. 1. V. idiota (1). 2. V. tolo (1, 2 e 6). 3. Psiq. Diz-se de, ou
aquele que sofre de imbelicilidade. [Pl.: -cis.]
Im.be.ci.li.da.de
sf 1. Qualidade ou ato de imbecil. 2. Psiq. Retardo mental
em que o nível intelectual do indivíduo não ultrapassa o de uma criança de 7
anos.”
(míni
Aurélio, 7ª edição, Editora Positivo, 2008)
Às
vezes me acho uma imbecil. Se imbecil é fazer imbecilidade, e imbecilidade é
uma demonstração que o nível intelectual do indivíduo é de uma criança de menos
de 7 anos, posso dizer que me comporto como uma criança perguntadeira de 5
anos, no máximo. Tudo quero saber o porquê. Percebo que a pessoa que responde “estou
cumprindo ordens” geralmente também é um imbecil.
“As ideias dos homens são jogos de criança”
(Heráclito).
---------------------------------------------------------------
MENINA: Sr.
Deputado, o senhor foi membro do movimento estudantil, estudou Direito, então
me sinto confortável de conversar com o senhor, porque ao menos o senhor
entende de lei. Por que, então, votar a favor de um projeto do líder do
Executivo, se o senhor sabe que é inconstitucional?
DEPUTADO: Eu e
mais alguns Deputados conversamos com o Governador, mas ele insiste no projeto
de lei...
MENINA: Mas
Deputado, eu pensei que na Constituição Federal estivesse escrito que os
poderes são in-de-pen-den-tes entre si...
DEPUTADO (enfurecido): VOCÊ TEM QUE ENTENDER QUE
EM POLÍTICA É DIFERENTE: NÓS SOMOS UM GRUPO, E O QUE O GRUPO DECIDE, A GENTE
TEM QUE SEGUIR!
MENINA:
(...)
---------------------------------------------------------------
A MENINA ficou
feliz por alguns instantes. Ela acreditou que ser sincera adianta alguma coisa.
---------------------------------------------------------------
VIGILANTE DE
UMA EMPRESA TERCEIRIZADA: Senhora, por favor, abra o banner que quero ver o
conteúdo.
MENINA: Como
assim? E dependendo do quê estiver escrito vocês vão barrar?
SENHORA:
Deixe... é que ele pensa que estou junto aos professores protestando...
VIGILANTE DE
UMA EMPRESA TERCEIRIZADA: Estou cumprindo ordens...
MENINA: Ordens
de quem? Foi por que ato? Uma portaria? Uma circular? Cadê esse documento que
pensa substituir a Constituição Federal, que garante a liberdade de
manifestação de pensamento? Essa senhora tem o direito de entrar na chamada
“Casa do Povo” com o banner dela e ela se responsabiliza pelo conteúdo! O que
está vedado é o anonimato.
VIGILANTE DE
UMA EMPRESA TERCEIRIZADA: Foi uma ordem verbal...
MENINA: Pois
essa ordem verbal e nada é a mesma coisa. Você não tem autoridade alguma de
decidir o que entra ou não. Isso é censura, e não podemos permitir.
SENHORA (após abrir o banner e mostrá-lo ao Vigilante
de Uma Empresa Terceirizada): Satisfeito?
VIGILANTE
DE UMA EMPRESA TERCEIRIZADA: (...)
---------------------------------------------------------------
A MENINA ouviu que
uns tais Deputados estão tocando o terror no país. Parece que querem destruir o
povo brasileiro, envenenando sua comida com transgênicos e pesticidas ilegais
no resto do mundo, e depois semeiam discórdia e julgamentos morais-religiosos
para criar uma guerra interna entre os cidadãos envenenados. Ouviu também que
só fazem permitir desmatamento e empresas cavarem nosso solo ou desviar nossos
rios para espalhar desequilíbrio ecológico. A menina não entendia nada disso.
Ensinaram na escola que representatividade (eita palavra grande!) era uma coisa
assim ligada a “interesse do povo”. Ela dizia que criança quer é brincar como
os índios, então os índios é que “representam”. Como uma criança, entendeu que
tem dois grupinhos de um colégio maior que fica em Brasília (chamado Política
Brasileira) e parece que estão brigando pela bola, pois um teve a bola a vida
toda e, quando outros estavam jogando, resolveu tentar parar o jogo e pegar a
bola de volta. Ficou sabendo que, quando os dois puxaram a bola, ela rasgou.
Imbecis.
Imbecis.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
HABEAS CORPUS EM FAVOR DE GIULIETTA
EXMO(A) SR(A) DR(A) JUIZ(A)-LEITOR(A) DO SITE VIRTUALHADA
EU, MARTA DE OLIVEIRA TORRES, já qualificada nos presentes
autos, venho, por intermédio dessa VIRTUALHADA, interpor um HABEAS CORPUS PREVENTIVO
em favor de GIULIETTA, italiana, magrela dobrável e leve, sem placa, domiciliada
em Salvador-BA, ainda não apresentada a esse Juízo, contra ato perpetrado pela
autoridade pública ora informada, pelas razões de fato e direito que
passa a expor:
Em 11 de julho do corrente ano, GIULIETTA saia pela 3ª vez
naquela cidade para passear. GIULIETTA tinha medo de rodar pelas ruas de
Salvador: nas duas únicas investidas nesses quase dois anos que residia na primeira
capital do Brasil, em uma ela levou uma fechada de um ônibus e na outra levou
uma queda. Nessa terceira, no entanto, GIULIETTA nem imaginava que voltaria
para casa sem ver o sol se pôr.
Conforme narrado nos autos do inquérito nº 1432/2015, GIULIETTA
estava passeando no Porto da Barra ao final da manhã daquele ensolarado dia de
suposto inverno, deliciando-se com a brisa leve em seus pneus, apreciando as esparças
nuvens que voavam sobre suas costas, quando, de repente, sofreu uma freada
brusca. Em seguida, quando deu por si, estava sendo conduzida presa, acusada de
crime de desacato.
Somente na presente data, 3/12/2015, GIULIETTA recebeu uma
intimação deste Juízo e pediu para que eu lesse para ela, uma vez que ainda não
aprendeu a falar português.
Expliquei para ela que assim afirma o inquérito: “que em
nenhum momento o declarante agrediu a Sra. Marta, tendo ela sido conduzida no interior
da viatura e sua bicicleta foi trazida no xadrez.”.
Em outra passagem, “ELA SE DIRIGIU A GUARNIÇAO COM VARIAS PALAVRAS DE BAIXO CALÃO,
COMO BABACA, IMBECIL, IDIOTA. E QUE
ALEM DISSO ELA CALUNIOU OS POLICIAIS AFIRMANDO QUE OS MESMOS SÓ PRENDEM NEGROS,
AO RECEBER VOZ DE PRISÃO SENTOU-SE NO BAR RECUSANDO A SER CONDUZIDA. RESISTINDO
A PRISÃO O QUE FEZ AUMENTAR A TURBA, DIFICULTANDO A CONDUÇÃO DOS ELEMENTOS ATE
A DELEGACIA, QUE APÓS INSISTIR A MESMA FOI CONDUZIDA NA GUARNIÇÃO DA POLICIA
SEM A NECESSIDADE DE ALGEMAS, E NEM NO PRESIDIO DA VIATURA, VISTO QUE O
PRESIDIO ESTAVA OCUPADO PELA BICICLETA DA MESMA.”
GIULIETTA soltou um ar por
seus pneus quando a lembrei do episódio em que foi conduzida no presídio da
viatura. Não ficou angustiada pela acusação. Ela me contou que lá na Itália os
policiais não prendiam não. Eles matavam. Aí eu respondi que no Nordeste de
Amaralina também.
Assustada, GIULIETTA suplicou-me para que a represente na
audiência perante esse Juízo, informa que está com o pneu murcho e não está
afim de sair de casa. Pediu para alegar em sua defesa: “A MINHA BUZINA ESTÁ
QUEBRADA!”. Como, então, poderia ter falado qualquer verdade?
Por essa razão, Exmo(a) Sr(a) Juiz(a), peço encarecidamente, com fundamento
na Constituição Federal, artigo quinto, inciso não sei lá das quantas, que
APRECIE esse HABEAS CORPUS PREVENTIVO e conceda o TRANCAMENTO DA PRESENTE AÇÃO
PENAL.
Atenciosamente,
Marta de Oliveira Torres
Escritora do blog Virtualhada
sábado, 28 de novembro de 2015
Crítica a Clarice
Conheci Clarice
Lispector tardiamente, em um livro com coletânea de contos dado por uma colega
de trabalho também de Maceió, também branca, também filha de pais trabalhadores
que proporcionaram alguma condição de vida suficiente pra ter uma infância em
uma casa tranquila e estudar no mesmo colégio que outras pessoas cujos pais já
nasceram ricos e não precisavam se esforçar tanto pra pagar a mensalidade. Ela
a apresentou como sendo uma escritora fabulosa, incrível, maravilhosa, encantadora,
como o título falava, “de cabeceira”. De fato, ao ler alguns de seus contos,
impressionou-me a forma como descrevia os sentimentos e sensações e fazia uma
autópsia da alma humana. Identifiquei-me em várias passagens, numa que falava
sobre um homem a enterrar um cão achado na rua pra espiar a culpa pelo abandono
de seu antigo cão amado, ou outro conto em que refletia sobre um relógio, o
tempo, Sveglia. Uma barata ou um cego vistos por uma dona de casa virariam
páginas de profunda reflexão sobre a vida e existência daquelas personagens
criadas por Clarice. Não imaginava, naquele momento, que eu poderia sentir
alguma antipatia por essa escritora que também passou sua infância em Maceió.
Até escrevi um conto inspirada em sua personagem Aurélia Nascimento, que
nascera ao se despir das maquiagens sobrepostas à sua natureza. “Clarice
Nascimento”, assim a homenagiei. Naquela época, eu descobria e amava Clarice
Lispector.
No entanto, quando
li uma seleção de crônicas de Clarice, surpreendi-me com uma incontrolável
aversão a tudo o que via. Talvez seja justamente meu histórico de vida
semelhante ao de Clarice que me causava tamanha agonia face a sua percepção da
realidade: em uma maestral combinação de palavras, Clarice Lispector traçava o
retrato de uma “classe média” mundial entretida em seus relacionamentos,
universidades, necessidades mesquinhas, pra quem as empregadas despertam
desconforto, os pedintes despertam no máximo caridade, a mulher casada-mãe se
revela como uma obrigação tão natural que faz da escritora uma leitura obrigatória
na literatura brasileira de destaque universal. Tudo isso, que cresci vivendo e
achando único modo de ver o mundo, passaria como louvável não fosse pelo meu
trabalho na Defensoria Pública. Não que na Defensoria Pública seja diferente:
os selecionados por um concurso público são praticamente todos advindos de
criações semelhantes a minha. Mas as histórias que escuto diariamente me
fizeram enxergar um mundo além de Clarice, criada em Maceió, formada em
Direito, frequentadora de casas com esculturas como as de Bruno Giorgi, com
várias empregadas domésticas a servir, andando conduzida por choveres pelos
bairros nobres das principais cidades do mundo.
Seria grande
hipocrisia minha dizer que não sou constituída de Clarice. Apertou-me a
garganta ao ler “As três experiências”, em que ela narra suas três razões de
viver: amar os outros, escrever, criar seus filhos. Também sinto um profundo
amor à vida, à escrita, e aos filhos do mundo e aos que nem ainda tenho. Não
foi só o fato de ter crescido com o cheiro do mar verde de Maceió, uma discreta
semelhança na aparência, e agora o vício do cigarro (orgânico) o que me liga à
escritora naturalizada brasileira: a escrita como modo de expressar a ânsia de
viver e a angústia do vivido também me acompanha desde tenra idade. No entanto,
tenho várias ressalvas quanto aos relatos de Clarice, a ponto de ter terminado
de ler suas crônicas não mais de forma prazerosa, mas quase que discutindo com
a eterna escritora.
A começar por “Por
detrás da devoção”, crônica louvada por Diogo Mainardi, ex-correspondente de
uma revista tendenciosa que sustenta a filosofia de Leviatã como caminho pra a
felicidade. Impressiona-me a maneira discriminatória com que a festejada
escritora trata a empregada doméstica Aninha, descrita como incapaz de entender
um livro seu, e a irônica surpresa porque teria a “renitente” utilizado a
palavra “pueril”. Pior que o asco que me despertou ao ler a crônica, foi quando
vi o comentário daquele escritor da Veja ao se referir à miséria dos
nordestinos: “Trinta e três anos atrás, quando A hora da estrela foi
escrito, ainda vivíamos num apartheid relativamente eficiente.
Os miseráveis ficavam longe de nós, atormentando-nos apenas com o seu
desamparo. De lá pra cá, eles se tornaram bem mais visíveis. Quebram os vidros
dos nossos carros e roubam nossos rádios. E minha sobrinha ouvem a música que
eles ouvem”.
Depois vem a
absurda “Das vantagens de ser bobo”. E digo absurda porque só quem cresceu em
um ambiente cristão como Clarice (e eu!) pode querer extrair alguma vantagem de
ser passado pra trás. “Excesso de amor”, insiste a escritora. Perdoe-me,
Clarice, mas essa de “perdoar setenta vezes sete” é história da carochinha pra
manter os escravos sendo escravos, perdoando seus patrões de todas as
humilhações enquanto espera morrer pra ir ao reino dos céus. Até porque a
escritora “boba” não se revela nada “boba” quando uma senhora entra num táxi e
pede pra que ela ceda a vez e deixe a idosa primeiro em sua casa porque tem um
compromisso, episódio descrito em “Mal-estar de um anjo”. Vitoriosamente,
Clarice nega a “bondade” exigida ao “anjo” e se despe de suas asas, afirmando
que quer ser deixada primeiro e ponto final. A narrativa de Clarice revela,
como o comentarista Joaquim Ferreira dos Santos adjetiva, duas “dondocas” que
se encontram no banco de trás do carro em Copacabana, disputando o trajeto de
um chofer em um dia de chuva. Ser bobo nem é tão bom assim, né, Clarice? Como
diz meu professor Harildo Déda, “gentileza gera gente lesa”.
“O caso da caneta
de ouro” e a valorização de uma caneta porque é feita desse metal (típica
conduta de uma sociedade desprovida de consciência humana e que acumula
riquezas fúteis e desnecessárias), combinada ao “As caridades odiosas” revelam
o tacanho pensamento da classe média: a caneta deve ser objeto de desejo dos
dois filhos (como um dos filhos não quis, despertou o estranhamento da autora e
daí sua crônica), enquanto é incomodo que o “menino a que a sujeira e o sangue
interno davam um tom quente de pele”, humildemente, “poupe a bondade” de
Clarice ao se contentar com só um doce dado de esmola.
Se Clarice não
fosse branca e rica, escrever “Cem anos de perdão” seria uma apologia ao crime,
pois não via problema algum entrar em casas alheias pra retirar uma simples
rosa. Se ela fosse negra e estivesse com fome e entrasse pra pegar um resto de
leite em uma lata jogada no lixo da casa de um dos palacetes que Clarice
entrava com o coração palpitando, com certeza seria presa. E se não tivesse um
Defensor Público, ficaria (fica) uns seis meses com o “coração palpitando” dentro
de uma cela, um coração feito do mesmo sangue vermelho da escritora que
alegremente conta sua experiência como algo que “foi tão bom que simplesmente
passei a roubar rosas”. No Brasil, Clarice, se você fosse negra e pobre
entrando em um palacete pra roubar rosas, não teria nem um único dia de perdão.
E agora, nem se fosse uma jovem adolescente de 16 anos apaixonada por rosas.
Esta seria esmagada como as pitangas que escorriam de suas mãos quando as
apertava no afobamento de roubá-las do pomar da igreja.
Não vou nem me
delongar na agonia que senti quando vi a crônica “Armando Nogueira, futebol e
eu, a coitada”: coitada por que, Clarice? Porque é mulher e não entende de
futebol? Coitado é de Armando que passa o tempo escrevendo sobre o
entretenimento-de-massas-chamado-futebol e não consegue refletir sobre coisas
tão naturais como o sentimento humano! Coitados de nós, homens e mulheres, que
vivemos nessa dicotomia de “coisa de homem” x “coisa de mulher”. Coitada de
você, Clarice, que como milhares de mulheres de sua geração tinha que tomar
calmante pra conter a natureza humana, e precisa que seu filho diferencie
“emoção” de “nervosismo”, como informa na crônica “Lição de filho”, de modo a
poupar o medicamento quase que obrigatório pra as reprimidas mulheres pseudo-burguesas.
Coitada da nossa sociedade que ao invés de refletir sobre as causas dos
problemas sociais fica divagando sobre tantas futilidades.
Perdoe-me, Clarice,
mas não a lerei mais. A não ser pra aprender a escrever, coisa que espero
conseguir um dia. Por enquanto, não sou ninguém pra te criticar. Aliás,
justamente pela minha insignificância, você não terá nem que me perdoar.
Afinal, morta, já se tornou eterna, e quem sou eu pra diminuir o brilho de uma
porta-voz desses valores tão comuns. Eu não sou ninguém. Eu ainda nem nasci.
(comentários ao
livro “Clarice Lispector – Clarice na cabeceira – crônicas”, da editora Rocco)
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
ATENÇÃO, CLARICE NASCIMENTO!
“Atenção Clarice Nascimento! Última
chamada para o voo 1609 com destino a São Paulo”
Da fila do banheiro feminino, Clarice
percebeu que, se não abandonasse aquela espera necessária naquele exato
momento, poderia perder sua viagem de volta pra casa. Se perdesse o voo, iria
acabar postergando seu tão esperado encontro com seu canto, sua paz. O atraso
no embarque pra o voo 1609 soava proposital: invadida por uma profunda solidão,
Clarice sentia-se desejada quando ouvia seu nome ser falado pela comissária da
empresa de viagem. “Sim, eles me aguardam, eles me esperam, eles chamam por
mim”, pensou ao ouvir seu nome. “Atenção Clarice Nascimento! Última chamada...”
A sensação de ser desejada acalentava-lhe
como pôr as frias mãos pra esquentar no bolso do casaco numa úmida tarde no
inverno de São Paulo. Mas o pensamento denunciava que ela se fazia necessária
ali imediatamente, não por sua história de vida, sua maneira de compartilhar
sentimentos, de se revelar... Seu nome era chamado pra cumprir um destino:
sentar na poltrona 22D. Todos a queriam ali pra que todos pudessem seguir.
Todos os passageiros do voo 1609 concentrados em suas passagens, sentados em
seus assentos numerados como um número de telefone celular.
Satisfeita, apresentou apressadamente seu
bilhete, na esperança que não fosse exigido mostrar qualquer documento,
possivelmente perdido em meio a tantos papéis em sua bolsa. “A identidade, por
favor”, ordenava a Comissária. Mostrando o documento, refletia: “Sim, eu sou
Clarice, será que a todo momento tenho que comprovar isso?”.
Dominada pela vontade de silenciar sua
solidão, Clarice depositou sem ajuda sua pesada mochila no compartimento de
bagagem, sentou na poltrona 22D, aguardou o comandante levantar voo e embalada
pela turbulência como num berço, logo adormecera como um bebê.
Mas tal como sua avó lhe ensinara, deveria
ter ido ao banheiro antes de sair, pra não interromper percursos a fim de
liberar a água saudavelmente consumida com leve excesso. Sorte que estava na
poltrona do corredor. Levantou-se, dirigiu-se ao banheiro do avião, que mal
cabia seu 1,60 m de altura e o singelo curvar das formas de seus 53 kg.
Encontrou papel no piso de outras mãos não
educadas jogadas fora de seu depósito convencional chamado lixeira. “Suportar a
sujeira até vai, mas limpar sujeira alheia é demais. Mas e se alguém entrar
depois e pensar que fui eu?” . Ainda assim, não valeria sua colaboração à
organização do local, afinal seu papel ali era meramente de figuração num voo
lotado de passageiros.
Foi quando estava deixando a água de seu
corpo seguir outro destino que a porta se abre e ela encara olhos claros
fitando espantadamente sua posição, estupefatos ao se deparar com sua pessoa no
banheiro de porta não trancada corretamente!
Aquele Comissário de Olhos Claros, ao
empurrar aquela porta, não sabia que estaria a violar um momento de sublima
intimidade de Clarice. Há tanto tempo considerava reservado os instantes de
eliminar dejetos que nenhum familiar ou amigo presenciara tal cena. Com uma
velocidade constrangida, Clarice puxou bruscamente a porta, mas não tinha como
voltar pra juntar o que havia se rompido: aquele que seria um segredo seu tinha
sido violado. Um total estranho presenciara seu momento de maior intimidade.
Clarice sentia como se sua alma tivesse sido estuprada: se o que havia de mais
recôndito em Clarice fora revelado pra um estranho, nada mais tinha por
que ser segredo.
Clarice voltou pra seu assento com uma
vontade de se abrir pra o mundo, de se exibir, de contar as suas histórias, e
ficou pensando em todas as histórias que ela poderia contar, enquanto estava
ali esperando o Comissário passar de novo pra ela olhar de novo nos olhos dele.
Clarice escuta o barulhinho do carrinho vindo em sua direção e já começa a
ficar nervosa: "é ele! Ele está vindo! Como será a reação dele? Será que
ele vai me aprovar?".
E aí ficou naquela tensão. E aí ele
chegou, ela olhou pra ele e percebeu que não era ele o comissário que tinha
aberto a porta. Voltou a ficar tranquila, mas novamente pensando em todas as
coisas que ela queria fazer pra se expandir e se mostrar pra o mundo.
Quando ela estava saindo, Clarice passou
por ele, mas ele não olhou pra ela. Ele não a viu saindo e ela ficou sem saber
qual foi a opinião dele diante daquele momento de tamanha intimidade dela.
Voltou pra casa com aquele questionamento
de qual teria sido a reação dele. E aí passou pela Avenida Brasil, passou por
uma concessionária, alguns bancos, uma clínica de estética, outros bancos, uma
construtora, uma imobiliária, outras casas de luxo, salão de beleza, e foi
chegando no seu prédio, subiu até o 14º andar, abriu a porta, estava sozinha em
casa, entrou no banheiro, e trancou a porta.
(inspirada no conto "Ele me
bebeu" do livro "A via crucis do corpo", de Clarice Lispector)
domingo, 6 de setembro de 2015
Independência
Algumas pessoas estão chateadas porque esqueci de felicitá-las em seus aniversários.
Perdão, estou distraída com o tempo. Só sei que dia é hoje porque amanhã é feriado.
Feriado de quê, mesmo?
Ah, da independência.
Independência de quê, mesmo?
Perdão, estou distraída com o tempo. Só sei que dia é hoje porque amanhã é feriado.
Feriado de quê, mesmo?
Ah, da independência.
Independência de quê, mesmo?
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
A ROSA-LILÁS E A FLOR COR DE ROSA
"Tenho uma doença: 'vejo a linguagem'" (Roland Barthes)
Ser viajante é observar os outros olhares do mundo refletidos no perfume das flores, na forma das casas, no sabor dos cafés, nos idiomas e conversas infindáveis.
Não ter uma câmera fotográfica é encontrar o papel. É bom também. Não tem como fotografar a sensação de velocidade extasiante ao descer uma escada rolante que sobe. Ou o esquentar do amargo café no corpo perfumado pela doce flor Rosa-Lilás que encontrei no jardim da Casa das Rosas. A flor não era rosa. A rosa era lilás.
Eu estava tão bem na foto, tomando meu café com cigarro orgânico, mas o indivíduo só viu beleza em seu selfie. Tudo bem, não o conheço mesmo.
As palavras me confundem. Às vezes esqueço se admiração é com i depois do d ou não. Mas a admiração não se confunde: só alcança o que é certo de acordo com myself.
É alegria poder sentar embaixo de uma árvore na Av. Paulista e saber que estou recebendo um pouco de oxigênio dessa princesa parada que abriga pássaros cantadores disputando a atenção dos tímpanos em meio a freios, portas abrindo e fechando, rádios com músicas estrangeiras passageiras. As árvores e os pássaros ficam.
Eu sigo me transformando como as xícaras que tintilam no bar, às vezes cheias de café, às vezes com água e sabão, às vezes com pano, às vezes com mão.
A maquinização e padronização do ser humano não consegue impedir o sol de ultrapassar as nuvens espessas de chuva e poeira para esquentar o meu rosto anestesiado pela fria brisa de inverno. De onde vem esse vento que me imobiliza enquanto faz dançar sedutoramente e animadamente as bandeiras?
Escrever é buscar palavras e ideias que estão condensadas no íntimo. É descobrir a raiz do próprio fio de cabelo.
"Recorre frequentemente a uma espécie de filosofia, vagamente intitulada 'pluralismo'. Quem sabe se essa insistência no plural não será uma forma de negar a dualidade sexual? Não se deve permitir que a oposição dos sexos seja uma lei da Natureza; e portanto necessário dissolver os afrontamentos e os paradigmas, pluralizar ao mesmo tempo os sentidos e os sexos: o sentido caminhará para a sua multiplicação, a sua dispersão (na teoria do texto), e o sexo não ficará preso a nenhuma tipologia (não haverá, por exemplo, senão 'várias homossexualidades' (...)" (Roland Barthes).
A chuva encheu de diamantes essa flor-porco-espinho-cor-de-rosa que mora perto da Av. Paulista.
Ser viajante é observar os outros olhares do mundo refletidos no perfume das flores, na forma das casas, no sabor dos cafés, nos idiomas e conversas infindáveis.
Não ter uma câmera fotográfica é encontrar o papel. É bom também. Não tem como fotografar a sensação de velocidade extasiante ao descer uma escada rolante que sobe. Ou o esquentar do amargo café no corpo perfumado pela doce flor Rosa-Lilás que encontrei no jardim da Casa das Rosas. A flor não era rosa. A rosa era lilás.
Eu estava tão bem na foto, tomando meu café com cigarro orgânico, mas o indivíduo só viu beleza em seu selfie. Tudo bem, não o conheço mesmo.
As palavras me confundem. Às vezes esqueço se admiração é com i depois do d ou não. Mas a admiração não se confunde: só alcança o que é certo de acordo com myself.
É alegria poder sentar embaixo de uma árvore na Av. Paulista e saber que estou recebendo um pouco de oxigênio dessa princesa parada que abriga pássaros cantadores disputando a atenção dos tímpanos em meio a freios, portas abrindo e fechando, rádios com músicas estrangeiras passageiras. As árvores e os pássaros ficam.
Eu sigo me transformando como as xícaras que tintilam no bar, às vezes cheias de café, às vezes com água e sabão, às vezes com pano, às vezes com mão.
A maquinização e padronização do ser humano não consegue impedir o sol de ultrapassar as nuvens espessas de chuva e poeira para esquentar o meu rosto anestesiado pela fria brisa de inverno. De onde vem esse vento que me imobiliza enquanto faz dançar sedutoramente e animadamente as bandeiras?
Escrever é buscar palavras e ideias que estão condensadas no íntimo. É descobrir a raiz do próprio fio de cabelo.
"Recorre frequentemente a uma espécie de filosofia, vagamente intitulada 'pluralismo'. Quem sabe se essa insistência no plural não será uma forma de negar a dualidade sexual? Não se deve permitir que a oposição dos sexos seja uma lei da Natureza; e portanto necessário dissolver os afrontamentos e os paradigmas, pluralizar ao mesmo tempo os sentidos e os sexos: o sentido caminhará para a sua multiplicação, a sua dispersão (na teoria do texto), e o sexo não ficará preso a nenhuma tipologia (não haverá, por exemplo, senão 'várias homossexualidades' (...)" (Roland Barthes).
A chuva encheu de diamantes essa flor-porco-espinho-cor-de-rosa que mora perto da Av. Paulista.
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